Cócoras e o parto: mitos, verdades, e mais algumas coisas

Cócoras e o parto: mitos, verdades, e mais algumas coisas

Cócoras: como que é, como que faz, pode ou não pode?!

E aí como que é, como que faz, pode ou não pode?!
Não faltam perguntas, dúvidas e todos os tipos de conselho sobre esse assunto  – vamos destrinchar?

Um pouco de coisas “técnicas” para começar, porque a gente gosta!

A posição da pelve na postura de cócoras:Embora não se trata em nenhum momento de procurar uma posição estática, é bom entender o conceito de “pelve neutra” (que varia de pessoa em pessoa e em função das fases da vida: uma pelve neutra na gestação é diferente de uma pelve neutra fora da gestação).

Na posição de cócoras, procure evitar demais retroversão da pelve (que é quando o cóccix vem muito para dentro e as costas ficam bem arredondadas), favorecendo posições nas quais as costas são mais alongadas (parecendo mais uma linha ondulada do que uma curva só) e o sacro e coccix mais livres de se mover.

Padrões posturais, encurtamento dos glúteos, tensões ligamentares, fraqueza dos músculos intrínsecos do pé (que estabilizam os arcos) ou problemas articulares podem limitar o movimento de agachamento.

Para isso, talvez seja preciso usar algum apoio para frente ou para trás, algo para se suspender, ou ainda um pequeno apoio embaixo dos calcanhares. Não é necessário procurar “descer até o chão” para que funcione!

LEIA MAIS AQUI SOBRE POSTURA E PADRÕES

Atenção as principais contraindicações a posição de cócoras na gravidez

Não é recomendado praticar a posição de cócoras completa se a gestante tiver:

Placenta prévia.

Ligadura cervical.

Hemorróidas ou varizes dolorosas nas pernas ou na vagina (evitar permanência.Experimentar variações dinâmicas, parar se piorar).

Dor na sínfise púbica.

Lesão articular (joelhos, tornozelos, pelve).

Apresentação pélvica ou posterior depois de 30 semanas aproximadamente!

Cada caso é um caso!

Lembrando que, a maioria dos bebês se acomodam na posição cefálica por volta da 30° semana. Na 32° semana, 15% dos bebês continuam pélvicos.

A termo, esse número desce para 3 a 4% dos bebês.).

Além das variações demonstradas nos vídeos, é sempre possível fazer a postura com um apoio (banquinho, blocos, almofadão), e até utilizando o apoio da parede. Isso facilita muito, em particular no final da gestação.

Principais benefícios da posição de cócoras:

Conserva a mobilidade das articulações intrínsecas e extrínsecas da pelve.

Fortalece e equilibra o assoalho pélvico (mas há de ter cuidado com a distribuição da pressão intra-abdominal).

Ajuda a aumentar os diâmetros pélvicos tanto superior como inferior (muda principalmente em função da posição das pernas).

Alongamento profundo das três curvaturas da coluna (extensão axial) – isto é, quando a posição for feita respeitando essas curvaturas!

Neste vídeo, cócoras clássica e algumas variações

Detalhando o vídeo:

1º temos a entrada “clássica”: pés paralelos, da largura da bacia. Agachar-se usando os braços para fazer contra-peso.

Variação: entrar com pés em V, calcanhares alinhados com a bacia, dedos dos pés apontando para fora porém na linha das coxas. Atenção! A direção do pé sempre se alinha com a direção da coxa. 

Sempre observar a extensão da coluna. Procurar a sensação de “costas compridas”. O topo da cabeça apontando para o céu, os ísquios (os ossinhos de sentar) apontando para o chão.

E se os calcanhares não chegam no chão? Não fique na ponta dos pés! Use um apoio para os calcanhares. Geralmente um rolo tipo “espaguete” de piscina funciona muito bem. Os calcanhares tem que ter um apoio bem firme no solo.

Primeira variação: Meia-cócoras dinâmica com blocos (ou sem, para mim os blocos ficam muito alto e acabo enrolando minhas costas, ouch… se tivesse com um bebê na barriga, estaria com a sensação de amassá-lo! Espaço nas costas e no ventre sempre!). 

Os calcanhares continuam alinhados com os ísquios, os pés não se deslocam, é apenas um giro das pernas e do torso, apoiando um joelho após o outro e levantando um calcanhar. Observe o vídeo! É fácil e gostoso, ótimo para mobilidade pélvica.

Segunda variação: Meia-cócoras com a bola (ou outro apoio: assento de cadeira por ex.). Ops! Meu pé poderia estar mais para frente! Mas cada variação vale, permite-se explorar diversos movimentos. 

No final do vídeo veja (como o modelo de pelve) com a posição das pernas e joelhos impactam na abertura do diâmetro pélvico inferior.

Mas, atenção, isso é só um modelo muito simplificado: falta acrescentar o movimento do sacro (nutação/contratação) e o papel dos tecidos moles (músculos, ligamentos, fáscia…) 

Neste segundo vídeo,  mais uma variação da posição de cócoras, útil em particular quando parece que nunca vai conseguir!

Mas é então, cócoras no parto, ajuda ou não?

Depende! Mas de fato é uma posição que as mulheres adotam espontaneamente, se tiver liberdade de movimento.

Enquanto o bebê desce, negociando a sua passagem, inclinando-se e fazendo as rotações necessárias, a pelve materna recebe esforços mecânicos aos quais ela procura responder modificando a sua inclinação para encontrar o melhor ângulo, enquanto o relaxamento e flexibilidade dos ligamentos promovidos pelos hormônios gestacionais permite maior abertura e mobilidade dos ossos da bacia (sacro, cóccix e ilíacos). Vale observar que a possibilidade da parturiente poder se movimentar livremente durante o trabalho de parto permite maior mobilidade desses ossos (a abertura do diâmetro da abertura inferior da pelve chega a ser 30% maior na posição de cócoras que na posição de litotomia ou decúbito dorsal).

Não é necessário afastar muito os joelhos! Cada mulher pode experimentar essa posição respeitando seu corpo. Como expliquei antes, nem tem “necessidade” de ir até o chão… O grau de afastamento dos joelhos impacta no posicionamento dos ossos da pelve entre eles e afeta a tensão do assoalho pélvico. No parto, a posição ideal (se é que existe isso, “posição ideal no parto”…) vai ser aquela que permite à mulher a melhor abertura e ângulo para a passagem do seu bebê. Isto varia em função da sua anatomia e da posição do bebê. 

Na posição realizada com os joelhos afastados, o assoalho pélvico está em tensão e o espaço entre as espinhas ilíacas, cóccix, sacro e ísquios é reduzido. Para o momento do expulsivo, a posição com os joelhos mais próximos pode ser melhor. 

É importante as mulheres entenderem que para parir elas não tem que conseguir ficar naquela posição de cócoras com os joelhos muito abertos! Para poder relaxar os músculos do assoalho pélvico, é importante que haja sustentação ou apoio (nas costas ou a frente), abrindo os joelhos apenas na medida do conforto e das possibilidades de cada mulher.

Em vários lugares no mundo o método Spinning Babies tem popularizado a compreensão da relação entre os movimentos da pelve as posições do feto, sendo que o tema tem sido já longamente estudado por pessoas como Jeanne Sutton com o Optimal Foetal Positioning, Janet Balaskas e o Active Birth ou ainda Blandine Calais-Germain nos seus maravilhosos livros de anatomia sobre a pelve e o parto.

Respondendo a perguntas frequentes

A pergunta talvez mais comum é: “É perigoso? Pode provocar um parto prematuro? Pode provocar um aborto espontâneo?”

Atenção: meus comentários abaixo dizem respeito APENAS à situação de gestação de baixo risco!

Aborto espontâneo: não há atualmente nenhuma evidência que alguma atividade física possa provocar uma perda gestacional durante o primeiro trimestre da gestação. Seria bom tirar o peso dessa culpa dos ombros das mulheres. Podem se agachar ou plantar bananeira a vontade, isso não vai pôr seu bebê em risco (pode não ser sempre a coisa mais recomendada para a gestante, pode ocorrer distensões, quedas, má distribuição da pressão intra-abdominal, mas isso é outro papo. Aqui estou falando apenas da segurança do bebê).

E por que fazer então?

É importante lembrar sempre o primeiro ponto. Se estiver tudo bem com sua gestação, fisiologicamente falando, não há problema nenhum em se agachar em qualquer momento da gestação, não vai fazer o bebê nascer antes da hora. Acima listei algumas contra-indicações às quais tem que se prestar atenção. 

Agora, podemos sempre fazer a pergunta: por que fazer? E como fazer?

Porque vai me dar mais mobilidade? Porque eu me sinto bem fazendo? Porque pode ajudar meu bebê a encontrar mais espaço na minha pelve? Porque vi mulheres parindo nessa posição e me interessa sentir como é?

Todos esses motivos são válidos, enquanto não são baseados em:  “faço porque tem que”,  “faço porque me falaram que é para fazer mas não entendo porque”, “faço mas é super desconfortável”, ou seja, não pode virar fator de estresse nem obrigação.

O “desconfortável” é uma noção relativa, explorar novos movimentos ou posições pode não ser sempre confortável, mas não pode chegar a ser totalmente desagradável. Gestação, é para curtir! Já tem seus perrengues de vez em quando, não precisamos criar novos! 

Vamos lembrar que a posição agachada foi a nossa durante milênios, enquanto não existiam cadeiras e sofás… Se fosse tão perigosas, ou teríamos eliminado ela do nosso registro de movimento bem antes das cadeiras aparecer, ou estaríamos extintos. 

Essa postura acorda muitas sensações e memórias em nós, talvez por isso tantas dúvidas. Lá bem longe nas nossas memórias, ela parece ser tão ligada ao momento do parto que talvez gera aquele medo irracional; quando estava grávida da minha filha e que ia para consulta de prenatal, gostava de  ficar agachada encostada na parede da sala de espera do que ficar horas esperando sentada numa cadeira, mas sempre tinha uma pessoa muito bem intencionada que ficava preocupada a me ver assim e insistia em ceder sua cadeira para mim 😉

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